Já não é novidade que a galera do ON é a nova galera do OFF e enquanto assistia um dos Talent Digital Minds, alguém solta a frase:

"Tudo que estamos mostrando parece analógico, mas é muito digital".

Essa frase, além de fazer muito sentido, diz muito sobre os equívocos recorrentes que vemos pelas grades de programação da vida.

O publicitário médio aprende desde cedo que precisa jogar todas as suas energias no filme.

É a peça mais importante, os redatores se dedicam com cuidado, não por acaso, é a obra de arte, concebida e escrita pelas mãos dele. Diretores de Arte podem finalmente experimentar todas suas referências de cinema e quem sabe até virar diretor de cena e/ou fotografia no futuro.

– Vocês viram os jobs que passam
para fulano e beltrano?
– Vi sim.
– Deve ser escroto pegar só tabloide para
fazer. O que eles vão colocar na pasta?
– Eles merecem, sabia?
– Tu acha?
– Claro. Dupla ruim tem que
pegar 
esse tipo de job mesmo.
Quem manda não serem criativos.

Esse vício travestido de verdade perdura até hoje, mais vivo do que eu gostaria de admitir, mas perdura.

Jovens talentos são fisgados por essa necessidade de emplacar um bom filme, iniciados na corrida por verbas de produção, pela angústia de acertar e que esse acerto valide sua criatividade. Ideias só são ideias quando são materializadas em VT, seja de 15, 30 ou 60 segundos.

Aí apareceu nas rodas de conversa o termo “digital”.

Não demorou muito para os mais antenados migrarem, se adaptarem e criarem suas mecânicas carregadas de “verdades”. Gente de todo tipo foi para o digital.

– Mas para fazer o que?
– Para fazer filme é claro!

Não demorou muito para nascer dentro das novas agências digitais duas castas. A galera do dia-a-dia e os produtores de conteúdo. Dentro dessas castas há de tudo, jornalistas, publicitários, designers, relações públicas. Todos ali, descobrindo juntos o que fazer para ficar de pau duro enquanto lhes pedem filmes.

Isso é reflexo do OFF, uma miopia. Um dia a turma do ON vai perceber que eles não passam de um novo OFF.

Óbvio que estou generalizando, mas olhe direitinho ao seu redor. São os mesmos sistemas, as mesmas necessidades, as mesmas distrações conceituais, o mesmo equívoco que demanda soluções para plataformas ao invés de posicionamento. Os termos velhos foram ressignificados enquanto os novos mal conseguem pronunciar.

É preciso esquecer o ON e o OFF, o integrado, o 360 e porque não o full service?

É um novo mindset, papai.

Digital é cultura, é comportamental. Por mais clichê que soe, é sobre pessoas.

Como bem definiu João Livi:

No Line.

Esse pensamento é inteligente e pertinente. Não é sobre estar na linha ou fora dela, é não ter linha nenhuma para estar. Isso traduz bem o comportamento digital. É preciso ser contra-intuitivo, pois com inteligência e criatividade teremos poder para fazer o que quiser.

Aí está a magia. Parece analógico, parece feito para TV. Não é DOC, não é depoimento, não é tecnologia pela tecnologia. Não tem pretensão de viralizar, de ser MEME.

Não é somente dizer que tem uma ideia, é fazer da ideia algo real.

Simplesmente Digital.

É entretenimento com percepção do dia-a-dia. Os argentinos diriam que é insight. Não importa mais se tem ou não insight, é inegável que essa campanha da Bic consegue surpreender quem assiste.

Digital também é empoderar discursos sem a urgência de vender algo.

Uma das campanhas mais icônicas do que estão chamando de Femvertising.

É mostrar de forma objetiva que quem faz a marca não é a comunicação, e sim, os usuários.

Quem diria que um outdoor poderia ser chamado de Digital?

Digital é solucionar um problema sem esperar recompensas.

Mudar o status de algo virou o ponto de partida do Hackvertising.

É deixar de fazer anúncio de oportunidade e transformar a oportunidade em discurso.

Enquanto se perde tempo querendo contar uma história com Storytelling, poderia dar o braço a torcer para o Storybuilding.

E se juntarmos tudo isso, conseguiremos fazer algo ainda mais impactante. Algo que nasce de uma realidade bem conhecida de mercados pequenos. Um briefing raso, uma verba inexistente, uma causa que parecia absurda. Tudo é para lá de familiar.

Esse foi o contexto da campanha para o supermercado Intermarché.

The Inglorious Fruits and Vegetables

Chegou um briefing aí para fazer uma campanha contra desperdício de comida. E aí, quem quer?
Coloca a foto do produto bem grande viu.
Tem que colocar o nome do produto bem legível também.

Uma solução boa por ser simples, por não ter necessidade de ser filme, por se preocupar somente com o que importa que era ver produtos que nem existiam na gôndola.

Nesse caso, o filme foi a última coisa que fizeram. E como tudo já estava bem resolvido, o filme já estava praticamente pronto.

Superprodução?
Grandes verbas?

Depois é só usar a mesma lógica de observar antes de criar um argumento. O resultado vem naturalmente assim como um suco fresco.

Inquestionável né?

Repararam que nenhuma campanha é feita para ser online e muito menos feita para ser offline? São ideias despretensiosas pensadas para o produto e pelo produto. São campanhas que respeitam um novo mindset.

Elas não foram pensadas para o digital, elas simplesmente são digitais.