Logo após ler o anúncio oficial da reformulação da Google e da Alphabet, dei um sorriso que é uma mistura de alegria e frustração. Me explico melhor.

Será que essa decisão da Google vai afetar de forma positiva o mercado de comunicação? Conheço um bom número de pessoas que trabalham e/ou possuem um negócio ligado a essa área. Muitos compartilham a mesma miopia grave relacionada ao que move esse negócio, mas também compartilham algo que, apesar de nocivo, pode ser transformador para o segmento.

Eles adoram seguir a boiada.

Obviamente que seguem a sua maneira, escolhem o que lhes convém seguir, abraçam suas verdades. É o milagre da audição seletiva, da compreensão comprimida. Vomitam placebos esperando que haja uma cura completa no negócio que nunca chega.

– Mas o que diabos isso tem a ver com a Alphabet?
– Tudo. Vamos olhar com carinho.

Acima trecho do anúncio de Larry Page sobre a Alphabet

O que pode soar como discurso de marketing “fazer coisas mais ambiciosas, apostar no longo prazo, empoderar grandes empreendedores e companhias, investir com escala em oportunidades e recursos, promover a transparência no que estão fazendo e, como consequência disso tudo, melhorar a vida das pessoas” carrega um #ficadica gigantesco.

Aí tem filé operacional que já vem dando as caras há algum tempo, mas ainda não era hype o suficiente para atrair os caga-regras. Essa listinha é quase um mapa do tesouro para o mercado de comunicação de hoje em dia. O mesmo mercado que anda se agarrando desesperadamente ao social media como se só isso fosse “ser digital”, que ainda aposta em filmes carregados de simbolismos que não atraem mais ninguém.

"We’ve long believed that over time companies tend to get comfortable doing the same thing, just making incremental changes"

Quantas agências podemos associar a essa frase acima?

"But in the technology industry, where revolutionary ideas drive the next big growth areas, you need to be a bit uncomfortable to stay relevant.”

E quantas poderíamos associar a frase acima?

Se substituirmos “companhias” por “agências” e “indústria da tecnologia” por “publicidade e propaganda” percebemos o quanto a comunicação anda perdendo sua relevância e a conta está em nós que produzimos confortáveis o que tem saído para a rua.

Mas vamos lá, pessoal. Sejamos otimistas. Afinal, se a Google, que é um navio cargueiro e depende de mil cálculos matemáticos para poder fazer uma mudança de percurso conseguiu se reorganizar e mudar a direção, por que uma agência de 50 funcionários felizes, um coletivo disruptivo, uma hotshop descolada e enxuta e aquela empresa que finalmente conseguiu ser uma agência integrada não conseguiriam?

Por favor, sigam essa boiada.

– Mas Geras, dá um help, tá difícil.
– Sossega a perequita aí que nem é tão complicado.

A FastCo falou algo que já dava para sacar tem um tempinho. Freelancer is the future. E de fato é um grande passo abraçar os freelancers. Essa galera pode ser tudo, mas nunca estão confortáveis.

"Você não entregará toda a sua força de trabalho a um só empregador. Será um mundo de relações efêmeras — que duram o tempo que fizerem sentido."

Essa será provavelmente uma das conveniências mais difíceis de abrir mão. Não é fácil abrir mão do controle que uma empresa detêm sobre um funcionário. Mas é bom ficar de olho, 2020 está bem aí e mesmo que aqui não seja os mesmos 60, ainda teremos os nossos milhões para lidar.

Óbvio que não se trata de substituir a equipe por freelas, mas sim de apostar em projetos de longa duração com profissionais que estão ansiosos para fazer algo realmente ambicioso. Isso requer, acima de tudo, uma capacidade de entender que o papel da agência é muito mais burocrático que criativo.

Isso nos leva a outra conveniência. O dono da bola.

Muita gente nesse mercado adora criar a fantasia de que o jogo só existe porque a figura está em campo. Esses são os CEO-wannabe. Para eles é uma tarefa árdua confiar no taco da equipe, há aquela necessidade de se meter na frente da bola o tempo inteiro.

Eu acho até bonitinho essa necessidade de atenção. Em reuniões dá vontade de gravar vídeos e publicar na mesma categoria dos vídeos de gatinhos. Há um pouco de ingenuidade nessa conveniência.

Na nossa profissão não há espaço para genialidades, basicamente tudo o que produzimos são fruto de uma série de pessoas envolvidas. Ninguém tem o dom de midas. Acredite, você pode ter lido todas as biografias de Steve Jobs que ainda não vai conseguir fazer um terço do que a equipe dele fez para ele ter tido a chance de possuir uma biografia.

No fim, tudo isso se resume ao que Larry Page disse: é preciso deixar tudo um pouco desconfortável. Até porque, se está confortável há uma grande chance da relevância estar dando lugar para a conveniência.